Reportagem: A Naifa na Casa da Música

Uma casa tão fácil de habitar

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Não Se Deitam Comigo Corações Obedientes” chegou ao Porto esta semana numa noite de cumplicidades e emoções. A Naifa deu um concerto do mais intimista que podíamos imaginar na Casa da Música e os nossos corações não souberam como desobedecer. Perdoem-nos a fraqueza.

O programa abriu com “Uma Falha no Programa”, mas aqui nem tudo é literal. Com A Naifa é preciso estar atento às palavras e à sua força transcendente. Não foi uma falha no alinhamento, foi um tiro certeiro nos nervos que nos fazem sensíveis. Não é melodrama, nem pieguice. Mas é a língua portuguesa num pedestal, como só ela merece.

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Estávamos sentados à espera porque não queremos sequer pensar em dores nas pernas. E assim estamos mais próximos uns dos outros. E deles. De Maria Antónia Mendes e de Luís Varatojo. E agora dos novos membros Sandra Baptista e Samuel Palitos. E de João Aguardela, o mentor d’A Naifa, desaparecido em 2009, mas sempre tão presente.

O concerto contou com criações de todos os trabalhos do grupo e, depois de “Émulos” e “Talvez a Injecção Letal”, do último álbum, seria injusto dizer que só ao terceiro tema é que a vocalista ofereceu algumas palavras à sala. É que as canções do grupo, palavras de novos poetas nacionais e, claro, de João Aguardela, são uma das grandes prendas da música de raiz portuguesa.

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“Obrigada Porto, obrigada por terem vindo”, abriu as janelas dos antecessores: “Uma inocente inclinação para o mal”, “Três minutos antes da maré encher” e “Canções subterrâneas”. “Nós tínhamos muitas saudades do Porto”, confessou Maria Antónia Mendes, “esperamos que o Porto também tenha tido saudades nossas”. Parece que sim.

Apagam-se as luzes, damos lugar ao silêncio e volta o embale ao som de “Cat People”, a que se segue “Gosto da cidade”. A Naifa expressa o português onde todos concordamos, numa viagem à essência da palavra dita na língua de Camões. Não há censura, a palavra é forte e é para sê-lo.

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Na Casa da Música ainda recebemos, do primeiro álbum, “Hécuba” e “Skipping”, que contribuiu para as mais descoordenadas batidas do coração. Se calhar era apenas – apenas? – a da guitarra portuguesa de Luís Varatojo, já nos (con)fundimos.

E agora…O momento. A sala faz-se silêncio ensurdecedor e a pele arrepiou-se nos primeiros versos de “Libertação”, poema de David Mourão-Ferreira, cantado por Amália Rodrigues. Diz a canção: «Em tudo vejo fronteiras/ fronteiras ao nosso amor/ Longe daquí, onde queiras,/ a vida será maior». O som do baixo de fundo e nós sustemos a respiração. Quando a guitarra entra de mansinho, para não atrapalhar, torna-se tudo mais intenso. “Esta música é dedicada à memória de João Aguardela”. Como só podia.

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Num desenrolar de canções, o Porto ainda sentiu “Monotone”, “Esta depressão que me anima” e “Homenagem a 4 poetas e 1 cineasta/ Não há mais mundos”. Em “A verdade apanha-se com enganos” cantamos nós que também sabemos. Mesmo tímidos, mesmo a dar espaço à guitarra portuguesa, queremos mostrar que estamos em sintonia.

 Depois de “Aniversário”, o maior sorriso de Maria Antónia Mendes, rendida ao momento que ali se viveu, foi para “Música”. E nós, mesmo não tendo aquela voz, temos o ritmo do fado no sangue. Quando pudemos, e quisemos fazer barulho, foi para o encore.

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A Naifa voltou ao palco com o single do novo álbum, “De Cara a la Pared” para nos fazer sentir cada verso cravado na pele. Ao som “ Todo o Amor Não Foi Suficiente” arriscamo-nos a dizer que, se não foi suficiente, pelo menos o amor vai servindo para estas canções. E para a emoção desmedida.

 “Subida aos céus”, dos Três Tristes Tigres também entoou na Casa da Música e, com o grande aplauso que faz nascer o abraço coletivo em palco, já estamos todos de pé. “Não se vão sentar”, pediu a vocalista. Não, vamos aproveitar agora até ao final “Señorita”, que esta é para mexer o esqueleto. “Quero os comunistas do Porto todos de pé”. Obedeceram todos e mais alguns. Somos fracos, não queremos sequer resistir.

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Texto: Cláudia Brandão
Fotografia: Miguel Oliveira 

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