Rock In Rio – 5º Dia

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           O último dia desta edição do Rock in Rio – Lisboa atraiu cerca de 81 mil pessoas até o Parque da Bela Vista. O festival, que é já uma paragem obrigatória, de dois em dois anos, para todos os festivaleiros, termina em grande com uma actuação memorável de Bruce Springsteen.

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            Mas antes de o Boss subir ao palco ainda há muita música para ouvir. Portanto, ficamos para já pelo Palco Sunset para assistir à união da bossa nova com o fado. Crise é o primeiro tema que ouvimos neste final de tarde, pela voz de Pedro Luís. A canção termina e o brasileiro agradece ao público a sua presença ali e expressa o prazer que tem em tocar ali: “é uma emoção estar aqui a tocar para vocês, neste palco de encontros geniais da música e dos portugueses com os brasileiros!” Logo de seguida, o encontro dá-se: Carminho entra no palco e é imediatamente aplaudida. Cantam Lusa, outro tema de Pedro Luís e, quando acabam, o músico sai do palco enquanto diz “vocês agora ficam com a Carminho, que eu vou só desfrutar…” A fadista aproveita a pausa para expressar, também ela, o que sente em estar ali: “nem imaginam o prazer que é estar aqui, e olhar para vocês. Eu também já estive aí, a ver muitos concertos… e nem acredito que hoje estou aqui, a tocar para vocês!” Seguem-se fados tradicionais, como Fado das Queixas ou Lágrimas do Céu. Em Bom Dia, Amor, a fadista consegue pôr uma plateia inteira a cantar com ela. E, depois, um dos momentos mais bonitos deste palco é protagonizado por um avião. Enquanto ouvimos Escrevi o Teu Nome ao Vento, um avião sobrevoa o palco bem baixinho, muito perto de nós. A forma como Carminho brincou com isso e continuou o seu fado mostrou que palcos já não a assustam e que está perfeitamente à vontade em concertos. Pedro Luís regressa, desta vez, para cantar um fado, Nunca É Silêncio em Vão, com Carminho. Um desafio que não correu nada mal, e que mostrou que a saudade também pode ser cantada com sotaque carioca.

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            David Fonseca abre o concerto com um dos mais recentes temas, Under The Willow, e toca logo de seguida o single deste novo trabalho, What Life Is For. Entre saltos, danças frenéticas e brincadeiras com o microfone, David Fonseca apresenta-se em palco com uma energia quase eléctrica que contagia todos os que assistem ao espectáculo. “Nesta não é preciso saber a letra… Basta saberem fazer isto…” e ouvimos o célebre assobio de Superstars. O público acaba por substituir o assobio por um lalalalala quase viciante. Depois, o português convida Mallu Magalhães a juntar-se a ele para cantar Sometimes Always. Ouvimos também Velha e Louca e somos depois surpreendidos com uma versão diferente de A Cry 4 Love. As diferenças não foram assim tantas… Mas só o facto de a voz ser feminina muda tudo, e só quando o David Fonseca começou a cantar é que as pessoas do público se manifestaram. Para Kiss Me, oh Kiss Me, Mallu Magalhães abandona o palco, mas o português não canta sozinho. Toda a plateia se junta a ele, não só no refrão, mas em todo o tema. A cantora brasileira de apenas 19 anos ainda se voltou a juntar a David Fonseca e, para terminar em grande, The 80’s foi a canção escolhida.

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            Do Palco Sunset saltamos para o Mundo; mais concretamente, para Leeds, de onde são naturais os Kaiser Chiefs. Never Miss a Beat foi o single de Off With Their Heads, álbum de 2008, e foi também a canção que estreou o Palco Mundo neste último dia de Rock in Rio – Lisboa. De seguida, um dos maiores trunfos da banda – provavelmente, numa tentativa de atrair os mais indecisos e os que ainda se passeavam pela Rock Street –, Everyday I Love You Less And Less, de Employment, o primeiro álbum da banda. I Predict a Riot e Ruby foram os outros dois momentos marcantes do concerto: definitivamente, dois cartões de visita da banda que já é repetente no Parque da Bela Vista (passou por cá na edição de 2008). Imprevisível e surpreendente, Ricky Wilson deixa todos de boca aberta e câmara fotográfica ao alto quando decide deslizar no slide que atravessa a plateia de uma ponta à outra. Se muitos já tinham aproveitado o slide para uma vista privilegiada do palco e, portanto, dos concertos, ninguém tinha ainda pensado que um dos artistas se poderia também atrever a fazer aquela descida. Já no fim, enquanto canta Oh My God, junta-se ao público e brinca com as suas máquinas fotográficas, ostentando até um cachecol da Selecção Nacional.

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            Depois de um concerto agitado no Palco Mundo, fomos ver o pôr-do-sol ao som de Rui Veloso e Erasmo Carlos. O concerto começa com uma balada das mais conhecidas do reportório do Rui Veloso: Já Não Há Canções de Amor. Seguem-se outros hinos da carreira do português, como Sayago Blues, Chico Fininho e Lado Lunar. O público, visivelmente entusiasmado, tenta pôr o cantor a saltar… Mas a resposta é “pá, não me ponham a saltar que ontem deitei-me tarde!” Depois, Rui Veloso bebe água e explica “estou a beber à saúde do senhor que aí vem. É para mim uma honra inesperada chamar ao palco, pela primeira vez em Portugal, Erasmo Carlos!” O brasileiro entra em palco, é recebido com um aplauso animado, e exclama: “Espero que vocês gostem de mim, porque há muito tempo que eu amo vocês!” Seguem-se cinco temas da sua carreira, como Sou Criança e Vens Quente, até que Rui Veloso volta a entrar em palco e os dois cantam juntos Jogo Sujo e Inferno. Foi, sem dúvida, uma das colaborações luso-brasileiras deste palco que melhor resultou.

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            No Palco Mundo, o concerto de James já tinha começado. Laid foi a segunda canção de um concerto focado nos assumidamente saudosistas. É que a banda britânica pode não ter tido nenhum êxito nas rádios nos últimos anos, mas continua a conquistar o público com os seus trabalhos passados. She’s a Star é outro tema que demonstra isso mesmo. Depois de Gettin’ Away With It e Out To Get You, Tim Booth canta Johnny Yen, do primeiro álbum, Stutter, de 1986. De seguida, o vocalista da banda inglesa conta uma história da sua adolescência: recorda os seus 16 anos, quando era punk e tinha como referências musicais os Sex Pistols e Iggy Pop, artistas auto-destrutivos. Cerca de um ano depois, um amigo arranjou-lhe um bilhete para ir ver um concerto de uma banda que Booth não conhecia. Ele foi, reticente, e saiu de lá maravilhado. Era Bruce Springsteen & The E Street Band. Uma chuva de aplausos inunda o recinto. Tomorrow é outro tema que causa efusivas reacções numa plateia cada vez mais composta. A noite presenteia-nos com mais uma surpresa quando o violinista da banda, Saul Davies, fala em português quase fluente com o público. Explica que é inglês, mas mora no norte de Portugal com a mulher, que é portuguesa. Critica o fecho de escolas, principalmente na região em que reside, e reclama do preço da água e da luz. Recado dado ao “Coelhinho” – é assim que o músico se dirige ao Primeiro-Ministro –, e subitamente chegámos ao final de um concerto memorável, com Sit Down, hino da carreira dos James.

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            A única banda que actua duas vezes neste festival sobe ao Palco Mundo e explica que vão trazer ali alguns dos seus maiores sucessos. Falamos de Xutos e Pontapés, que tocaram com os brasileiros Titãs no Palco Sunset, no segundo dia do festival. Desta vez, sozinhos, mas sempre com a carga pronta e metida nos Contentores, arrancaram o público do chão e fizeram-no saltar, cantar e gritar durante mais de uma hora. Ouvimos temas incontornáveis da carreira desta banda rock, que conta já com mais de 30 anos de actividade, como Não Sou o Único, À Minha Maneira ou Homem do Leme. Em Circo de Feras chegamos a ouvir melhor as cantorias do público do que a voz de Tim. Segue-se um momento menos acelerado, com Perfeito Vazio e Tonto. Nesta última, os músicos abandonam o palco, deixando apenas Zé Pedro na guitarra e Kalú… na voz. E o baterista não desaponta. Quem é Quem traz de volta o Tim, o João Cabeleira e o Gui para encher novamente o Parque da Bela Vista de rock. Dia de S. Receber e Chuva Dissolvente são os momentos mais agitados desta segunda parte mais calma, mas não esquecer o eterno Para Ti, Maria, que põe todos a cantar e saltar de novo. Casinha foi o tema que fechou o concerto da semana passada no Palco Sunset e foi o que quase fechou o desta noite. Depois de matadas as saudades que nós já tínhamos dos Xutos e Pontapés, e com as despedidas já praticamente feitas, eis que nos surpreendem com mais uma canção. P’ra Sempre, uma das baladas mais bonitas da banda, em forma de uma espécie de declaração de amor ao público. Vemos braços no ar e luzes de telemóveis a piscar. Vemos casais abraçados e olhares cúmplices por toda a parte. Os Xutos e Pontapés não desiludiram ninguém.

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            Todos sabiam quem era a grande atracção desta noite: Bruce Springsteen and the E Street Band. O público esperava ansiosamente pela chegada do Boss ao Palco Mundo. Já ninguém tentava levar mais brindes para casa; todos procuravam o melhor lugar para ver o concerto. Uns furavam para chegar mais perto do palco, outros preferiram ficar afastados da confusão, mas todos estavam ali para ver, uns novamente e outros pela primeira vez, o cantor, compositor, guitarrista e ainda violinista de 62 anos. We Take Care Of Our Own dá início ao concerto que promete ser inesquecível. Segue-se Wrecking Ball, a canção que dá nome ao álbum lançado este ano. Mas o norte-americano não está ali – apenas – para apresentar o seu mais recente trabalho. Depois de duas canções das novas, ouvimos um tema de 1978, do álbum, Darkness On The Edge of Town, Badland. É certo que o público gosta sempre de artistas que interagem, mas a conversa não fez falta nenhuma ali, onde as canções que todos sabiam de cor encheram todo o recinto e preencheram qualquer vazio. As primeiras palavras dirigidas à plateia vieram antes de My City of Ruins, o quinto tema do concerto, e vieram num português esforçado: “É sobre as coisas que ficam para sempre”. Os mais atentos já tinham reparado, mas é quando Bruce Sprinsteen apresenta a banda que todos notam a ausência de Patti Scialfa, a mulher do cantor. “A Maria está em casa com as crianças e manda cumprimentos”, brinca ele, novamente num português esforçado capaz de agradar à maioria ali presente. Com Spirit In The Night foi cumprida a missão anunciada um pouco antes: “Viemos com uma missão: estimular os órgãos sexuais com o poder do rock’n’roll!” A canção que se seguiu foi celebrizada pela voz da grande Patti Smith, mas poucos sabem que lhe foi oferecida por Bruce Springsteen, nos anos 70. Falamos, claramente, de Because The Night. Para apresentar She’s The One, o norte-americano mostra um cartaz tirado do público. Este tema de 1995 é mais um ponto alto da noite – a bem dizer, não houve nenhum ponto baixo – e, desta vez, podemos ver o Boss tocar harmónica de forma irrepreensível e a entusiasmar todos os que assistiam a este espectáculo. Depois de I’m on Fire, voltamos aos coros soul com Shackle and Drawn e na Waiting On A Sunny Day regressamos às surpresas. Começamos a ouvir as guitarras acústicas de Bruce e Little Steven, misturadas com alguns coros, e somos brindados de seguida com um solo de saxofone. Até aqui, tudo normal. A surpresa surge quando Springsteen chama ao palco uma criança para cantar – ou tentar cantar – alguns versos da canção. A criança não só partilhou palco com uma das lendas ainda vivas do rock como chegou a estar ao colo dele… Leva certamente uma história para contar aos amigos e, mais tarde, aos filhos e netos. O público já está em êxtase e isto ainda vai a meio. A sequência que vem a seguir volta a encher o recinto de uma energia electrizante que contagia tudo e todos: The River, The Rising e We Are Alive. Esta última canção fala, como Bruce explicou, dos americanos que perderam casas e empregos, depois da crise financeira provocada pela falência da Lehman Brothers. Uma das canções que mais se ouviu no recinto ao longo destes cinco dias foi Born In The USA. No karaoke improvisado do palco do Millenium BCP, muitos foram os que trautearam o refrão deste tema, de 1984. Esta foi a vez de o Boss mostrar como é que se faz. Depois, Born to Run e Glory Days… Sabemos que isto está a chegar ao fim. Este brutal concerto termina com duas raparigas do público a dançar no palco ao som de Dancing In The Dark. A certa altura do concerto, entre músicas, Bruce confessou ter tido “muitas saudades” (não vinha a Portugal desde 1993, quando tocou no Estádio de Alvalade). Esperemos que não demore tanto tempo a voltar!

Texto: Raquel Segadães
Fotografia: Miguel Oliveira

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