Rock In Rio – 4º Dia

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69 mil pessoas contrariaram os indícios de mau tempo e, ignorando os chuviscos, foram ver Bryan Adams e Stevie Wonder. A chuva parecia ameaçar o quarto dia do festival da Bela Vista, mas o sol acabou por vencer e foi brilhando durante a tarde. O dia mais familiar desta edição do Rock in Rio – Lisboa começou em dois palcos: o Palco Sunset e o Vodafone Showcases. Se, no primeiro, o concerto era claramente dedicados aos mais jovens, no segundo a música mais rock mostrava aos pais que ainda se faz boa música em Portugal.

 

Uma hora depois de as portas do recinto terem aberto, os Asterisco Cardinal Bomba Caveira sobem ao palco mais próximo da entrada e chamam a atenção de quem por lá passa. Começam por agradecer a presença do baterista convidado (o baterista de outra banda que também há-de passar por este palco, Os Pontos Negros), e explicam que “o Zé não podia vir”. Pedem ajuda com o próximo refrão, que “é fácil”, e começam a cantar Passeio de Bicicleta.

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À mesma hora, a Ana Free começava um concerto animado no palco de onde se vê o pôr-do-sol. Na plateia, vemos famílias sentadas no chão a fazer piqueniques e crianças e adolescentes entusiasmadas com este final de tarde certamente diferente. A cantora, cheia de energia, tenta pôr o público a saltar, em canções como Summer Love, e a cantar, em canções como Girlfriend – o tema que mais reacções provocou. Para tocar I Want Your Love, chama The Monomes ao palco. O concerto termina com View, uma canção desta banda.

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Em tempos, ouvimos Driving You Slow nos anúncios da Vodafone. Foi assim que os The Gift ficaram conhecidos e é exactamente com este tema que começaram o concerto no Palco Mundo. A banda, que regressa aos palcos depois de uma pausa mais que justificada (“Tive um bebé!”, explica Sónia Tavares), decide brindar o público com uma espécie de viagem pelos seus maiores êxitos. Antes da balada inevitável, Fácil de Entender, a vocalista faz um apelo solidário: “Se ligarem para o 760 300 330 podem ajudar mais de nove mil crianças hospitalizadas. Já que vocês usam sempre os telemóveis para filmar indevidamente os concertos, agora podem usá-los para uma coisa boa! Quero ver toda a gente com os telemóveis na mão… Toda a gente a ligar!” A canção teve mais impacto do que o apelo, mas Sónia Tavares fez questão de o recordar, perguntando, a certa altura, “Já ligaram?”. Já no final, Nuno Gonçalves dedica a balada mais recente, Primavera, “a uma grande vocalista e agora também uma grande mãe”. O concerto termina com um dos hinos da banda, Music, e com toda a plateia, já composta, a cantar em coro.

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O Palco Sunset continua a promover encontros interessantes e, desta vez, vemos em palco três veteranos da música portuguesa: Luís Represas, João Gil e Jorge Palma. Luís Represas faz o mesmo apelo que Sónia Tavares, mas faz mais ainda: liga para o número já referido e explica “o que se ouve é ‘Obrigada por ajudarem a Fundação Gil’”. Tudo isto já com o Gil, “não é este Gil (aponta para João Gil), é o outro…”, em palco. Depois deste momento solidário, ouvimos um dos maiores sucessos de Represas, Feiticeira. O público canta o refrão em coro, mostrando que conhece bem o reportório ali tocado neste final de tarde. O Palma ainda não tinha subido ao palco, mas já estava a ser chamado pela plateia. Quando, finalmente, o vemos, ele é recebido por uma chuva de aplausos e por uma declaração de amor, da parte do João Gil: “Nós amamos este homem!” Não foi Imperdoável vermos um Palma meio ébrio, sem se lembrar bem das letras – afinal, estamos mais que habituados aos espectáculos dele. Em Encosta-te a Mim, o Represas abraça o colega e amigo e cantam juntos. Depois, é-nos dito que “o Gil agora vai recuar 36 anos!” e percebemos o aviso quando o vemos chegar ao palco com ferrinhos. Uma falha no som das cordas faz até com que João Gil brinque “se quiserem, eu posso fazer um solo de ferrinhos”, e faz mesmo, animando a plateia. Portugal, Portugal pode fazer parte de uma fase já passada da carreira de Jorge Palma, mas continua a ser das mais actuais que ali ouvimos. O mesmo podemos dizer da Canção da Fome, tema dos Trovante ali recuperado por Luís Represas e João Gil com a ajuda do grupo de percussão brasileiro Toque de Classe. Mas ainda antes disso, faz-se em palco uma sondagem geográfica. O Porto e as ilhas ficam a ganhar, e todos em coro cantam os Loucos de Lisboa. O concerto termina com 125 Azul, canção que faz emocionar não só os músicos mas também o público.

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Quatro anos depois da primeira presença da britânica Joss Stone no Parque da Bela Vista, ela regressa para cantar e encantar. Linda e simpatiquíssima como sempre, começa por testar canções novas, como Stoned Out of My Mind, e chega a perguntar “Should I sing another new one?”. Os sucessos mais antigos ficaram para a segunda metade do concerto e antes disso a cantora ainda brindou o público com um medley de Don’t Cha Wanna Ride, misturado com uma versão de You Got The Love (sucesso dos anos 80 recuperado mais recentemente pela Joss Stone e por Florence + The Machine). Fell In Love With a Boy, a versão do tema dos White Stripes, provocou reacções efusivas na plateia. Mas foi com You Had Me que o público foi inequivocamente conquistado. Joss Stone elogia o público… Mas pede mais: “You’re lovely singers! But the problem I am having is that I can’t hear you!” O encore, com Right To Be Wrong, do primeiro álbum de originais da britânica, Mind, Body and Soul, põe o público em alvoroço total.

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Mais um Showcase da Vodafone a preencher os intervalos do Palco Mundo. Desta vez, são os You Can’t Win, Charlie Brown que animam o público. A banda que esteve recentemente no South by Southwest, no Texas, encheu o palco de uma energia contagiante ao som de temas como I’ve Been Lost, o single do Chromatic, álbum de 2011, ou Sort Of, do primeiro EP da banda. Antes desta canção, problemas técnicos obrigam Afonso Cabral a prolongar as apresentações: “Nós somos os You Can’t Win, Charlie Brown… E estão aqui a dizer-me para falar… Mas eu não tenho jeito nenhum para falar!”, brinca. Terminam com a primeira canção de Chromatic, Over the Sun/Under the Water.

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Um dos nomes mais esperados deste festival sobe ao Palco Mundo sem atrasos e sob uma gigante chuva de aplausos. Meio ano depois da última passagem de Bryan Adams por Portugal, no Pavilhão Atlântico, ele regressa para nos oferecer uma jornada através dos seus maiores êxitos dos anos 80 e 90. Começamos com House Arrest, do álbum de 1991, Waking Up The Neighbours. Seguimos com Somebody e é depois da segunda canção que o canadiano cumprimenta o público, em português: “Boa noite, Lisboa! Boa noite, Portugal!” Não faltaram os sucessos Hearts On Fire ou 18 Till I Die, que geraram imenso entusiasmo no público. A sequência seguinte foi muito bem pensada: duas canções que se tornaram numa espécie de hinos da carreira do artista, Summer of 69 e Everything I Do (I Do It For You). Num ambiente de romance, com a plateia de braços no ar, ora com luzes verdes a publicitar a patrocinadora do festivel Heineken, ora com as luzes do telemóvel, todos cantaram. Com Cuts Like a Knife, tema que deu nome ao álbum de 1983, Bryan Adams conseguiu devolver à plateia a energia com que havia começado. De seguida, um momento que certamente o artista não irá esquecer – e nós também não! Ele começa por explicar que faz isto muitas vezes em concertos e avisa: “sometimes it goes well, sometimes it is a disaster!” O canadiano chama, aleatoriamente (ou não… dizem os mais desconfiados!), uma rapariga do público para substituir a voz de Mel C no tema When You’re Gone, do álbum A Day Like Today. A sortuda é Vanessa Silva, cantora e actriz com alguma experiência de palco. Só esse facto explica, portanto, a desenvoltura com que canta, dança, salta, ri, chora e surpreende não só o público mas também Bryan Adams. No final, ele, perplexo, pergunta “Are you a professional singer?” e ela explica que sim. Ele fica curioso, e diz que a vai procurar na internet. Podia-se dizer que este foi o ponto alto do concerto, mas este não chegou a ter nenhum ponto baixo. Segue-se Heaven, mais um momento o mais intimista que o espaço pode proporcionar nas condições de um festival com a dimensão do Rock in Rio. Pelo meio das canções, Bryan Adams vai dizendo uma ou outra coisa em português, mostrando que ainda não esqueceu o que aprendeu quando cá morou, na sua infância e adolescência. Terminamos esta viagem no tempo com All For Love, tema de Bryan Adams com Sting e Rod Stewart, feito para o filme Os Três Mosqueteiros, de 1993.

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Stevie Wonder não vinha a Portugal há vinte anos. Quem esperou duas décadas, não se importou de esperar mais uma hora – o tempo que separou o concerto de Bryan Adams da actuação do norte-americano Stevie Wonder. Let Your Love Come Down é a primeira música que ouvimos, logo seguida pelo clássico How Sweet It Is (To Be Loved By You). Acompanhado pela sua keytar, toca ritmos que fazem dançar até mesmo os mais cansados ali no recinto. Durante quase duas horas de concerto, presenteia os seus fãs com uma boa disposição contagiante. Chega mesmo a brincar com uma canção dos The Doors, Hello, I Love You, enquanto se dirige ao público, cumprimentando-o. Passou pelos êxitos My Eyes Don’t Cry e When I Fall In Love como se o tempo não tivesse passado por ele. Mostrou gostar de Bossa Nova, quando fez uma pequena versão da Garota do Ipanema, de Vinícius de Moraes e Tom Jobim, na harmónica, e pôs o público a cantar Você Abusou. Homenageou Michael Jackson, cantando The Way You Make Me Feel, e pondo todo o recinto a cantar com ele. Part Time Lover, I Just Called To Say I Love You e Superstition foram os temas melhor recebidos pela plateia, claramente por serem hinos da carreira do multi-instrumentista norte-americano. O concerto terminou com o público a cantar e dançar, emocionado e manifestamente feliz.

Texto: Raquel Segadães
Fotografia: Miguel Oliveira

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