Barco Rock Fest – 2º Dia

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Blusões de Couro, Ninjas & Companhia

Qualquer calendário com figuras femininas com carência de qualquer tipo de vestimenta ou pudor, existente em provavelmente 90% das garagens de Guimarães, não nos deixava esquecer que era dia 2 de Agosto, o segundo dia do Barco Rock Fest.

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Há quem admiravelmente possua traquejos e manhas capazes de identificar as horas do dia olhando somente para o Sol. Já não são os egípcios e passaram a ser os fotógrafos. Passam 30 minutos das seis da tarde e é a altura ideal para fotografar.

O ambiente que antecede o segundo dia do BRF devia ser servido com um belo vinho tinto alentejano e com a We are the People dos Empire of the Sun. Um pôr do sol deixando atrás de si um clima sépia e lomográfico, um rio Ave capaz de fazer inveja a qualquer piscina de um super, híper, mega complexo turístico algarvio e um ambiente reconfortante de paz e harmonia entre os campistas. Ao horizonte observam-se pequenos grupos a fazer piqueniques, a mergulhar no rio, a afinar a guitarra para cantorias entre amigos. O som das bolas de futebol a bater nos pés dos mais desportistas dos campistas quebra o silêncio e o ambiente bucólico que se manifestava no parque do Barco. Ao longe, ouve-se o o soundcheck dos Ninja Kore, banda que acabou por substituir os britânicos 2:54. Remisturas dos The Prodigy e “cenas a modos que” drum&bass acordam os campistas mais dorminhocos e termina com a moldura zen que se expressava no recinto.

São oito da noite e o recinto encontra-se praticamente vazio de tudo e cheio de nada. Os campistas estão a jantar e poucos se aventuram até ao palco.

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Entretanto, os SoundMaker, liderados pela vocalista Saphir Cristal, vieram demonstrar ao povo do Barco o que de bom e alternativo se anda a fazer pela Invicta. “No music, no sound, no singer…” sussurrava Saphir até que nos surpreende com um grito explosivo “JUST THE SOUNDMAKER!”. Com uma atuação com muito groove, balanço e sentimento, Saphir e companhia fizeram as delícias dos poucos que já se encontravam no recinto a assistir. Tiveram direito a fortes aplausos da parte dos The Last Internationale, que fizeram questão de assistir ao concerto na íntegra. Pode-se ainda afirmar que mereciam um público mais composto e dinâmico, mas deixaram vastos e belos apontamentos. Fechando os olhos, sentia-se uma dimensão hipnótica a varrer-nos o cérebro, com um violoncelo épico e com finos toques de burlesco na música. “Vem comigo surpreender-te” cantava Saphir na música “Barco de Papel”. E foi isso mesmo que aconteceu. Provavelmente vamos ouvir falar muito destes senhores em breve.

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Muito pouco há para escrever sobre a atuação dos Last Chance. Com um cariz mais pesado, mais rock e com um cheirinho muito ao de leve de Alter Bridge, os Last Chance não convenceram nem a opinião pública nem os campistas a sair das tendas. Com mais um concerto marcado pela fraca adesão do público, os campeonatos de matraquilhos pareciam mais emocionantes e gloriosos do que temas como Feeling, Keep the Silence e Cry a River dos Last Chance. Podia-se fazer um trocadilho com o nome da banda e sua prestação, podia-se.

Frio (do latim frigĭdu) é a sensação produzida pela falta de calor num corpo ou matéria, causada pela baixa temperatura. Se quisermos fazer comparações ou estudos meteorológicos, sabemos que depois do clima ameno vem o frio, a seguir o muito frio, o gelado, depois o clima polar e a seguir vem, finalmente, as noites no Barco. Uma pequena hipérbole para todos terem a noção do clima tropical que aqui se faz sentir.

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Com vontade de fazer a temperatura subir, os Kilimanjaro vindos diretamente de Barcelos mostram o porquê de ser já a segunda vez a atuarem no Barco e contarem com o festival Milhões de Festa no seu currículo. Com um rock experimental,com riffs de guitarra musculados e com uma bateria com vontade própria, os Kilimanjaro conseguiram arrancar o povo do Barco das tendas. Contando com uma setlist de apenas seis músicas, a banda de Barcelos fez a festa, lançou os foguetes e tiveram quem apanhasse as canas. Impossível de permanecer indiferente e não descolar o pé do chão.

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Vindos também de Barcelos, os ALTO! prometiam deixar o Barco à deriva em estilhaços. E cumpriram a missão. Contando com um João Pimenta possuído pelo demónio do rock, a interação com o público foi uma constante. “Está tudo bem connosco os 40?” gracejava com pingos de ironia o vocalista. Ruidosos, implacáveis, hiperativos e reativos, os ALTO! fizeram a terra tremer e geraram moches na plateia como quem bebe um copo de água. Até parece fácil partir a loiça toda como eles partiram. Com um rock de garagem cru, puro e duro, dezenas foram as manobras arriscadas que João Pimenta realizou no palco. Desde trepar a colunas a berrar dos locais mais inóspitos do palco, só faltou mesmo pendurar-se de cabeça para baixo. Fim de concerto no mínimo caricato, com um membro da produção a tentar arrancar o microfone ao vocalista Pimenta, abandonando este o palco completamente furibundo. That’s Rock and Roll, baby!! Se já traziam fãs na bagagem, mais uma mala cheia deles levam os ALTO! de volta para Barcelos.

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Muito se esperava dos La La la Ressonance. Com um background de fazer inveja a muitas bandas, com a crítica da imprensa a seu favor, com projetos intimamente ligados ao cinema, com raízes aos The Astonishing Urbana Fall, esperava-se mais e melhor destes senhores. Vários fatores fundamentam essa crítica negativa. A banda de André Simão, Gil Teixeira, Jorge Aristides, Ricardo Cibrão e Paulo Araújo eram os “intrusos” no cartaz deste ano. Com uma vertente mais ligada ao jazz, mais melancólica, a transição dos ALTO! para os La La La Ressonance não podia ser mais esquiva. Alterando apenas o papel dos músicos ao longo do concerto, até as expressões faciais dos mesmos mantiveram-se inalteradas. Apesar de contarem com uma boa instrumentalização, não era isso que era pedido nem querido pelo público do Barco, que rapidamente trocaram o concerto por uma partida de matrecos ou por um brinde de qualquer bebida que apresentasse um teor de álcool suficiente para que a banda sonora lhe agradasse. FAUST foi o álbum com maior destaque na sua atuação. O som do saxofone combina na perfeição com o carácter introspetivo que as músicas carregavam. Mas não se fizeram sentir. Não fizeram o público fechar os olhos e viajar, nem criaram qualquer tipo de ligação com este. Com certeza são capazes de muito melhor em eventos futuros.

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Com o cancelamento dos 2:54, coube a missão de ser cabeça de cartaz aos nova iorquinos The Last Internationale. E como essa tarefa lhes serviu que nem uma luva. Foram sem dúvida o ex-líbris do dia 2 do Barco Rock Fest. Com um toque folk à la mode de Neil Young e Johnny Cash, com uma atitude a lembrar os White Stripes, os The Racounters e os The Kills, os Blues with Boots dos The Last Internationale foi tudo o que os campistas pediam depois do concerto dos La La La Ressonance. Com um guitarrista de raízes em Arcos de Valdevez, capaz de dar uns toques na gramática portuguesa, um “Olá, boa noite!” sai da boca de Edgey. Pouco passa da meia-noite quando os primeiros versos saem da boca de Delila Paz. Delila é um ser curioso, ao reunir dentro dela um felino pronto a atacar e, ao mesmo tempo, a sua voz doce conquista-nos sem pestanejar. A tribo do Barco respondeu em massa e pela primeira vez via-se um recinto minimamente composto. Êxitos  como Fuzzy Little Creatures e Liberty and the Pursuit of Indian Blood, foram capazes de mostrar o lado interventivo e político da banda. Houve ainda tempo para dedicatórias ao bar local que os acolheu, à cidade de Nova Orleães e a um pequeno e hilariante diálogo entre Edgey e um elemento do público, em que o guitarrista remata com um “Tá bem caralho!” num português de partir a rir qualquer um. Ao longe, uma criança com menos de 5 anos, com um blusão de cabedal ao colo do pai, chora para não sair da primeira fila. Boa disposição, boa música e obviamente, um ótimo concerto.

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A fechar a noite, os Ninja Kore trouxeram o dubstep e o drum&bass debaixo do braço e, mascarados a rigor, fizeram com que festivaleiros mais despertos queimassem o resto das energias.

Texto: Diogo de Oliveira
Fotografia: Miguel Oliveira

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